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Negócios seguem travados no mercado brasileiro de grãos com impasse nos fretes

Publicado em 31/07/2018 12:09

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A questão do tabelamento dos fretes segue travando os negócios com os grãos no mercado brasileiro. A consulta pública sobre o caso permanece aberta na ANTT (Agência Nacional dos Transportes Terrestres) até o próximo dia 3 de agosto e, na sequência, uma audiência pública com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux será realizada. Até que isso se resolva, uma nova tabela não será divulgada e o fluxo da comercialização no país, portanto, não evolui com todo seu potencial. 

Como explicou o coordenador executivo do Movimento Pró Logística, Edeon Vaz Ferreira, uma evolução no assunto ainda dependerá das decisões judiciais, com as medidas tomadas pelo Supremo. Até lá, as mudanças serão poucas e a pauta não deverá evoluir muito.

Os altos valores da tabela inviabilizam novos negócios e, até este momento, os volumes de produtos que chegam aos portos nacionais têm sido trazidos por vagões de trens lotados de soja, farelo e milho ou por caminhões de frotas próprias de produtores ou grupos agrícolas e empresas. Para a nova safra, os novos negócios são ainda mais escassos.

"Está tudo parado da safra nova, que já não mostra intenção de negócios até que se encerre o tabelamento ou se crie um preço mínimo baixo que dê condição de negociar os valores dentro da realidade do mercado, e não como esta tabela trazida em maio, que deixou os valores para os grãos inviáveis de transportar", explica o consultor Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting. 

Segundo exemplifica o executivo, o frete para carregar o milho de Sorriso a Paranaguá está, atualmente, em R$ 400,00 por tonelada, contra algo entre R$ 280,00 e R$ 290,00 antes da tabela. Com o frete de retorno que era possível para os fertilizantes - que variava entre R$ 150,00 e R$ 180,00 por tonelada - o preço atual viabiliza o transporte, enquanto que no momento presente essa relação já não compensa mais. "Afinal, o frete de retorno vai ser o mesmo valor, explica.

Além da dificuldade no escoamento dos grãos e da chegada dos fertilizantes para dar início à próxima safra de verão que começa nos próximos meses, os produtores brasileiros ainda enfrentam problemas de armazenagem. A colheita do milho safrinha continua acontecendo, mais de 50% da área nacional já foi colhida e há pontos do Brasil onde o milho está sendo deixado a céu aberto, uma vez que os grãos da safra velha ainda ocupam os silos ou silos-bolsa.

Somente no estado de Mato Grosso, de acordo com informações do Imea (Instituto de Economia Agropecuária do estado de Mato Grosso), há pontos com esse quadro em cidades como Sorriso, Ipiranga do Norte, Querência, Tangará da Serra e Sinop. Em Sorriso, a comercialização da soja segue bastante travada depois de uma alta de cerca de 20% nos valores do frete, segundo relatou o produtor rural Laércio Pedro Lenz em entrevista ao pinnacle. 

"Após o tabelamento do frete a comercialização travou. Não temos negócios nem para a próxima safra de soja e milho, já que ninguém tem certeza do que vai acontecer. As tradings estão inseguras", diz. 

Da safrinha 2017/18 de milho, na região, ainda há cerca de 50% para ainda ser comercializada. "Mas não sabemos até quando conseguiremos segurar esse produto, uma vez que precisamos negociar para planejar a próxima temporada", alerta Lenz. E como completa o analista de mercado João Macedo, da INTL FCStone, “ao contrário da soja, o milho possui margens e preços mais reduzidos, o que impede que os produtores internalizem os custos logísticos e aceitem os fretes maiores". 

Leia ainda:

>> Incerteza logística e quebra de safra bagunçam escoamento do milho no Brasil, aponta INTL FCStone

O quadro, porém, tem sido comum em todo o estado. "As poucas negociações tiveram como principal empecilho a absorção do aumento de 16,4% no preço do frete durante os últimos dois meses. Nesse momento, também ocorriam as aquisições e entregas de insumos/fertilizantes para a safra futura, porém, de maneira cautelosa. Até o mês atual, foram comercializados 80,7% de todos os insumos/fertilizantes para a safra futura", informa o Imea em seu boletim semanal.

Em um artigo publicado no pinnacle, o professor doutor Marcos Fava Neves, professor titular (tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, lamenta o retrocesso que se instala no Brasil com uma intervenção desastrada do governo com essa do tabelamento. Ele diz:

"Um setor que já tinha ociosidade (mais oferta que demanda) devido a uma interferência equivocada (tabelamento) caminha para mais ineficiência ainda. Ou seja, mais caminhões, mais ativos, mais depreciação, mais ociosidade, mais ineficiência, menor ocupação de ativos... traduzindo em... menores margens. Isto tudo em tempos de Uber e de racionalização do uso de ativos na sociedade mundial. Retrocesso puro. 

No link a seguir, leia a íntegra do artigo

Tabelamento de Fretes: Consequências de uma intervenção equivocada, por Prof. Dr. Marcos Fava Neves

Em maio tivemos uma das mais danosas agressões que a sociedade brasileira costuma de vez em quando fazer contra ela mesma, desta vez foi a greve do transporte, espalhando bilhões de reais de perdas para todos os lados nas cadeias produtivas integradas, prejudicando a recuperação econômica e espalhando pânico na sociedade. Uma greve sem vencedores, como escrevi em artigo de análise ainda em maio, explicando suas causas e possíveis consequências.

No auge da greve, para resolver os problemas e normalizar a situação, surge uma proposta dos anos 70, o tabelamento de fretes, que vai contra qualquer modernidade econômica, contra a liberdade econômica, leis de mercado e até contra a Constituição brasileira.

A greve dos transportes já foi amplamente debatida, mas chamo a atenção neste texto apenas para um fato que previ no artigo sobre a greve e a proposta de tabelamento: uma possível verticalização da função transporte, ou seja, empresas e produtores começariam a investir em frotas próprias, internalizando a função transporte, para fugir da interferência do tabelamento. 

Dito e feito. Vendo a um telejornal no início da manhã de hoje, números foram apresentados e as vendas de caminhões no primeiro semestre de 2018 cresceram simplesmente 50% em relação ao mesmo período do ano anterior, em sua maioria, investimentos feitos por produtores rurais e industriais, numa função que não é seu negócio principal, o seu negócio foco (transporte). 

Um setor que já tinha ociosidade (mais oferta que demanda) devido a uma interferência equivocada (tabelamento) caminha para mais ineficiência ainda. Ou seja, mais caminhões, mais ativos, mais depreciação, mais ociosidade, mais ineficiência, menor ocupação de ativos... traduzindo em... menores margens. Isto tudo em tempos de Uber e de racionalização do uso de ativos na sociedade mundial. Retrocesso puro.

(Dr. Marcos Fava Neves, professor titular (tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo). 

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Por:
Carla Mendes
Fonte:
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2 comentários

  • LINDOLFO GUILHERME REINHEIMERCampo Novo do Parecis - TO

    1º - Petrobrás tentando recuperar os prejuízos da roubalheira, por exigencia dos acionistas, subia o preço diáriamente, invibilizando os camionheiros. 2º Os caminoneiros fizeram greve e revindicaram muito mais do que precisavam, para negociar com o governo, para receber um pouco. O governo "assustado" com a greve, e incompetente, concordou e atendeu todo pleito. 3º Numa "promoção" foram vendidos 700.000 caminhões com juro subsidiado, prazo à "perder de vista", e hoje tem 300.000 sobrando, sem frete, procurando otários para pagar a conta.

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  • LINDOLFO GUILHERME REINHEIMERCampo Novo do Parecis - TO

    Foi vendido 80%, mas entrega é muito menor.

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